TRANSTORNO DO NARCISISMO FACEBOOKIANO

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Dei aquela parada para o almoço, seguido de um café esfumaçante e uma conferida rápida no Jornal Nacional do Zuckerberg.

Facebook de sobremesa. Quem nunca? Eu idem.

Rolando os posts até onde a paciência permitiu, fiquei intrigado com uma coisa: a quantidade absurda de “mimimi”.

Voltei ao começo e contei: de 56 posts, nada menos que 44 (algo como 80% das postagens) poderiam ser classificados como puro, cristalino, melodiosamente azedo, Mimimi.

Uma ou outra publicação com bons vídeos de música, dicas de viagem, documentários e surfe (Thanx Leco Leandro Korolkovas e Vagner Villas Boas!), outros com links para excelentes notícias e artigos (Thanx Alexandre Barbosa e Cleber Assis!), alguns com correntes genuínas de ajuda (Parabéns Gabriel Augusto Rocha de Ilhabela! É assim que se faz!), uma meia dúzia de 2 ou 3 com reflexões e questionamentos bacanas, mas sério: a maioria era Mimimi mesmo.

Depois de milhares de anos lutando contra as intempéries da natureza, sobrevivendo a predadores, à fome, às guerras, como Darwin explicaria a espécie chorona que nos tornamos e que se lamuria com tanta obstinação nas redes sociais?

Nas últimas décadas, os níveis de Narcisismo de fato aumentaram consideravelmente, em especial na cultura ocidental. E isso não é uma opinião isolada minha (1, 2, 3, 4).

Nos anos pré-Século XXI, estimava-se que o transtorno narcisista afetava cerca de 1-2% da população, entretanto estudos mais atuais apontam uma incidência de 16%, podendo atingir percentuais ainda maiores em certas populações, tais como adultos jovens, estudantes de medicina (Ouch! Doeu aqui…), adolescentes e militares.

POR QUE AS PESSOAS ACESSAM O FACEBOOK?

Segundo Nadkarni & Hofmann (5), o uso do Facebook é motivado por dois impulsos primários: a necessidade de sentir-se parte de algo (fuga da percepção de isolamento e solidão) e a necessidade de validação (busca por popularidade e expressão social).

A possibilidade de compartilhar construtivamente ideias e pontos de vista, a habilidade de identificar e acompanhar amigos com interesses em comum, a chance de ampliar o networking, todas essas são explicações plausíveis e bastante positivas para uso do Facebook, mas convenhamos: não é com isso que você depara diariamente no seu feed, é?

Não, não é.

Estudos independentes conduzidos por Ross (6) e Mehdizadeh (7) produziram conclusões em comum: pessoas extrovertidas tendem a ter muitos amigos e utilizam o Facebook como uma ferramenta para garimpo de contatos e eventos, mas nunca como uma alternativa às atividades “ao vivo e em cores”.

Em contrapartida, pessoas com transtornos neuróticos narcisistas e/ou com baixa autoestima tendem a publicar mais fotos autopromocionais (em geral editadas), compartilham mais informações de caráter estritamente pessoal e têm baixo rendimento em atividades acadêmicas, além de passarem mais de 1h por dia penduradas na rede social.

Seres humanos são profundamente dependentes do suporte de outros seres humanos. É assim que cuidamos de bebês e construímos civilizações. Está na nossa natureza. Lembra-se de John Donne? “Nenhum homem é uma ilha”. O discernimento de valor-próprio e de autoestima é tanto causa como consequência dessas relações de codependência. Qualquer queda no nível dessa percepção aciona um alarme de Risco de Exclusão Social.

Esse sistema de alarme seria algo como um “Sociômetro”, um termômetro que usamos para medir nosso grau de aceitação pelo grupo. O Sociômetro apita e lá vamos nós correndo atrás de autovalorização antes que a manada nos esqueça e deixe-nos para trás.

Aspectos culturais e temporais influenciam a calibragem desse termômetro. Em sociedades Coletivistas, a interrelação entre os membros enfatiza a interdependência e prioriza a harmonia acima dos ganhos individuais. Por outro lado, em sociedades Individualistas, demonstrações de conquistas, vivências e sucessos individuais recebem a maior parte das recompensas e dos olhares de admiração – ainda que essas manifestações sejam de compaixão por si ou tentativas infantis de reverter a baixa autoestima.

OUVINDO O LADO OGRO DA FORÇA

Tudo bem. Você vai dizer que reclamar do Mimimi alheio é uma forma de Mimimi particular. Aceito a crítica, ela procede. Mas considerando especificamente as demonstrações de narcisismo magoado, por que eu teria que prestar atenção em você? Por que alguém nesse mundo deveria ter a obrigação de prestar atenção se as ideias que você expressa não vêm embutidas de qualquer valor, exceto autopiedade?

Existem 7 bilhões de pessoas nesse planeta e cada uma delas se acha única e especial ao seu modo. Se fosse necessário dedicar uma década inteira para atenciosamente aplaudir e acariciar os 80% de egos carentes que perambulam por aí – “puxa, você realmente é uma pessoa tão especial! e lamentamos muito caso a vida não esteja correspondendo às suas expectativas!” -, os 20% restantes da população teriam que passar 1,5 milhão de anos dedicando-se exclusivamente a esta tarefa hercúlea.

Um milhão e meio de anos aplaudindo a autocomiseração de outrens… putz!… no mínimo um atestado por tendinite ou inflamação nos testículos teria que rolar depois disso.

Círculos de amizades – e redes sociais – deveriam prestar-se tanto a propósitos Coletivos quanto Individualistas em igual medida. Infelizmente, a quantidade de Mimimi online sugere que essa balança anda – para ser discreto e parcimonioso ao extremo – meio desregulada.

Que tal então começar a fazer sua parte? Desligue o Sociômetro um pouco, mande o Narcisismo ir dar uma volta na praça, e coloque mais pesos honestos no lado do Coletivismo a partir de hoje.

Isso sim seria algo interessante de ver no feed amanhã.

 

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Referências:

  1. Tudomanyegyetem S. Narcissism in the world of Facebook. An evolutionary psychopathological interpretation. Psychiatr2013;28(4):440-53.
  1. Malik S, Khan M. Impact of Facebook addiction on narcissistic behavior and self-esteem among students. J Pak Med Assoc. 2015 Mar;65(3):260-3.
  1. Pincus AL, Lukowitsky MR. Pathological narcissism and narcissistic personality disorder. Annu Clin Psychol. 2010;6:421-46.
  1. Kapidzic S. Narcissism as a predictor of motivations behind Facebook profile picture selection. Cyberpsychol Behav Soc Netw 2013 Jan;16(1):14-9.
  1. Nadkarni A, Hofmann SG. Why Do People Use Facebook? Pers Dif. 2012 Feb 1;52(3):243-249.
  1. Ross C, Orr S, Sisic J, Simmering M, Orr R. Personality and motivations associated with Facebook use. Computers in Human Behavior. 2009;25:578–586.
  1. Mehdizadeh S. Self-presentation 2.0: narcissism and self-esteem on Facebook. Cyberpsychol Behav Soc Netw. 2010 Aug;13(4):357-64.

2 COMENTÁRIOS

  1. Alessandro,

    É um prazer ler seus artigos, tem sido de grande valia pra mim.

    Parabéns e sucesso.

    Caique, seu amigo do cruzeiro.

    Abraçis

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