COMO A COREIA DO SUL SE DESENVOLVEU?

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Na década de 1950, o sul-coreano médio era tão pobre quando o cidadão médio de Senegal, Honduras ou das Filipinas.

Em 1955, o PIB per capta da Coreia do Sul era de US$ 64. Hoje, é de aproximadamente US$ 29.740 – ou mais de 10 vezes maior que a média do PIB per capta dos outros três países supracitados.

Como isso aconteceu?

Desde 1910, a Coreia estava sob o jugo do Japão. Com o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, os japoneses foram expulsos do país e os coreanos se tornaram um dos povos mais felizes da terra. Mas o júbilo duraria pouco.

Primeiro, a península foi dividida ao meio: a metade Norte permaneceu controlada pelo comunismo da Rússia e da China, e a metade Sul foi dominada pelos EUA. Na sequência, Norte e Sul se engalfinharam em uma guerra patrocinada por seus aliados, ceifando a vida de mais de 2 milhões de coreanos. Quando o conflito terminou, em 1953, tanto o Norte quanto o Sul estavam devastados.

Curiosamente, estes traumas estabeleceriam as bases para o triunfo que ocorreria na Coreia do Sul na segunda metade do século XX: os refugiados da guerra migraram para as cidades, criando uma imensa força de trabalho para as novas fábricas. No interior, uma reforma agrária bem sucedida garantiu a propriedade privada para milhões de fazendeiros, que ganharam incentivos e estabilidade para empreender. Ao mesmo tempo, as escolas se multiplicaram aos milhares.

Não obstante, nada disso foi suficiente para fazer a economia decolar. A grande virada viria apenas com a ascensão do general Park Chung-hee ao poder, em 1963.

O INÍCIO DA SUBIDA

Ao final da Segunda Guerra Mundial, o controverso político Syngman Rhee assumiu como o primeiro presidente da Coreia do Sul com o apoio dos EUA. Após uma série de atrocidades, Rhee foi demitido do cargo pela Assembleia Nacional em 1960 – um evento conhecido como A Revolução de Abril.

O período de instabilidade politica que se seguiu levou Park Chung-hee, na época um major-general, a formar o Comitê Militar Revolucionário. Em 16 de maio de 1961, Park liderou um golpe que o conduziria ao poder. Em 1963, venceu as eleições presidenciais “legítimas” por uma margem de 1,5% dos votos.

Park era profundamente patriota e estava determinado a restaurar a soberania e a prosperidade em seu país, e via que a única maneira de alcançar isso seria tornar a Coreia do Sul uma potência econômica. Ele instituiu então um método de gerenciamento direcionado para um crescimento rápido, investindo pesadamente em industrialização a partir do conceito de Chaebol.

Chaebol é um termo coreano que define um conglomerado de empresas em torno de uma empresa-mãe, normalmente controladas por famílias. Foi a “colaboração” entre Chaebol, o regime político autoritário, a planificação econômica centralizada e uma cultura coletivista e fortemente disciplinadora que tirou a Coreia do Sul da pobreza no espaço de uma única geração.

Como resultado da política de Park, no final da década de 1960, a economia da Coreia do Sul crescia em média 9% por ano e a exportações, 29%.

O KEYNESIANISMO DE PARK

Os membros Chaebol (que incluía companhias como Hyundai, Samsung e LG, entre outras), recebiam tratamentos especiais do governo, com facilitação para obtenção de empréstimos, aceleração de licenciamentos e isenções fiscais – mas também eram submetidos a determinações do governo central sobre quê deveriam fabricar.

Talvez você conheça a Samsung hoje pelos smartphones que a empresa produz; a Hyundai pelos carros, e a LG pelos televisores e aparelhos de ar condicionado. Mas, até a primeira metade do século XX, estas companhias vendiam principalmente açúcar (Samsung), plásticos (LG) e arroz (Hyundai). Foi a partir da Era Park que estas empresas deslancharam.

Entre 1974 e 1984, a participação do Chaebol na economia subiu de 15% para 67%. As exportações da Coreia do Sul, que em 1961 somavam US$ 42 milhões, ultrapassaram a marca de US$ 10 bilhões em 1977.

Park Chung-hee melhorou os laços diplomáticos com o Japão (o que resultou em empréstimos de quase US$ 1 bilhão na década de 1960) e enviou 300.000 soldados para a Guerra do Vietnam. Os EUA ajudaram a custear esta força extra com um auxílio financeiro de quase US$ 2 bilhões – que os soldados sul-coreanos enviaram investiram em seu país de origem. Entre 1964 e 1974, quando as forças sul-coreanas foram despachadas para o Vietnã, o PIB per capta na Coreia do Sul aumentou 5 vezes.

Park também enviou civis para o exterior para ganhar dinheiro. Na década de 1970, operários sul-coreanos construíram estradas, fábricas e portos no Oriente Médio. Apenas a Hyundai faturou mais de US$ 51 bilhões nestas transações.

Sob o surto keynesiano de crescimento da ditadura de Park, a democracia desapareceu, as empresas sentiram-se livres para tratar os trabalhadores como bem entendessem e as instituições de apoio aos menos favorecidos praticamente sumiram.

Ao longo da década de 1970, o autoritarismo de Park se tornou cada vez mais intolerável. Finalmente, na noite de 26 de outubro de 1979, durante um jantar em Seul, Park foi assassinado pelo general Kim Jae-gyu, um amigo e ex-colega de escola militar, que servia como Diretor do serviço de inteligência sul-coreano. Kim e seus colaboradores foram capturados, torturados, julgados e posteriormente executados, e ainda é motivo de controvérsia se o assassinato foi uma ação premeditada ou de impulso.

OS EFEITOS TARDIOS DA ERA CHUNG-HEE

Park foi um ditador implacável e cometeu inúmeras violações dos direitos humanos, mas certamente merece crédito por ter reconhecido que a industrialização era a melhor maneira de assegurar o crescimento de seu país, indo até mesmo contra o interesse de aliados como os EUA, que preferiam ver a Coreia do Sul fabricando perucas ao invés de circuitos integrados.

É preciso reconhecer que foram as mudanças impostas por Park que produziram o Tigre Asiático que conhecemos hoje, com o 12º melhor IDH do mundo e uma das nações tecnologicamente mais avançadas do planeta.

Seguindo os preceitos de competitividade estabelecidos por Park, as aplicações da Coreia do Sul em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) superam aqueles dos EUA e do Japão: entre 1996 e 2015, os investimentos em P&D aumentaram 88% na Coreia do Sul (nos EUA, o crescimento foi de 14% no mesmo período).

De acordo com o Banco Mundial, em um ranking de 190 nações, a Coreia do Sul é o 5º país mais fácil para se fazer negócios (o Brasil ocupa a 109ª posição). O Tigre ainda é um Tigre. E feroz. Mas durante seus 69 anos de história, a Coreia do Sul passou 4 décadas sob regimes autoritários, a maioria deles conduzidos por militares, e a influência da caserna pode ser vista em cada canto da sociedade sul-coreana, de escolas a empresas, tanto em situações formais quanto na intimidade dos lares.

O casamento entre a cultura militar rígida e os valores do Confucionismo produziu uma obediência inquestionável à hierarquia, seja em salas de aula, escritórios ou a mesa do almoço.

Mesmo após a redemocratização em 1987, a mentalidade Utilitária e Coletivista permanece tatuada em muitos comportamentos dos sul-coreanos: antes das aulas, os estudantes cantam o hino nacional em uníssono e recitam um juramento à bandeira. Eles se levantam e saúdam polidamente seus professores antes de cada aula e jamais respondem de maneira ríspida aos mais velhos.

A cultura corporativa segue uma toada semelhante: ao final do expediente, não é considerado educado que um empregado mais novo saia do escritório antes de seus superiores.

Os sul-coreanos não buscam apenas o sucesso pessoal, mas o progresso das empresas para as quais trabalham e, ulteriormente, de sua pátria. A profundidade deste compromisso pode ser vista quando os cidadãos doaram voluntariamente ao Estado fatias consideráveis seus próprios rendimentos para resgatar a economia durante a crise financeira asiática de 1997.

Apesar de louvável, a mentalidade Coletivista criou algumas ineficiências e tragédias. Por exemplo: o PIB sul-coreano por hora de trabalho é um dos menores entre os países da OECD. Para manter a prosperidade nacional, a Coreia do Sul tem a terceira maior carga horária de trabalho entre os membros da OECD, atrás apenas do México e da Costa Rica.

Boa parte dos cidadãos que sacrificaram seus anos produtivos em nome do projeto de país elaborado por Park Chung-hee encontra-se hoje abaixo da linha da pobreza, e os jovens sul-coreanos do século XXI tornaram-se mais individualistas e menos compromissados com sacrifícios pessoais em prol da coletividade.

Estas mudanças de atitudes, associadas ao rígido conservadorismo cultural e ao ambiente profissional absurdamente competitivo, tem infligido à Coreia do Sul uma epidemia silenciosa e terrível: atualmente, o país tem a 10ª maior taxa de suicídio do mundo.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, para cada grupo de 100.000 sul-coreanos, 20 cometem suicídio a cada ano. No Brasil, esta taxa é de 6,1, o que nos coloca na 130ª posição em um ranking de 183 países. Mais pessoas cometem suicídio na rica Coreia do Sul que em países paupérrimos como Burundi, Uganda, Libéria e Serra Leoa.

Como bem profetizou Milton Friedman, não existe almoço grátis. Qualquer desenvolvimento nacionalista, no final das contas, tem seu preço. A pergunta não é se ele pode ser comprado, mas o quanto estamos dispostos a pagar por ele.
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Referências Selecionadas:

https://restoftheiceberg.org/posts/2018/9/10/why-is-south-korea-so-rich

How Did South Korea Become So Rich?

https://www.stlouisfed.org/on-the-economy/2018/march/how-south-korea-economy-develop-quickly

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