MORAL, JUSTIÇA E CONVENIÊNCIA

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Em A República, Platão acertadamente afirma que “ninguém é justo por sua vontade: quando cada um julga que lhe é possível cometer injustiças, comete-as”, pois “o supra-sumo da justiça não é exatamente ser justo, mas parecer justo sem o ser”(1).

Exemplos contundentes de ambas as premissas puderam ser observados em dois testes que se tornaram clássicos no campo da psicologia: o Experimento do Aprisionamento de Stanford (2) e o Experimento Milgram (3).

O Experimento Stanford

Em 1971, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Stanford liderada pelo professor Philip Zimbardo simulou as condições de uma prisão para investigar o comportamento humano em uma sociedade na qual os indivíduos são definidos apenas pelo grupo. O Experimento envolveu 24 participantes recrutados através de um anúncio de jornal.

Após serem divididos em dois grupos de igual número (“guardas” e “prisioneiros”), os guardas receberam bastões de madeira, uniformes de estilo militar e óculos de sol espelhados para evitar contato visual. Os prisioneiros receberam números em vez de nomes; roupões ao estilo do oriente médio (sem roupas de baixo); chinelos de borracha; meias-calças apertadas que deveriam usar em suas cabeças para simular que seus cabelos estivessem raspados; e eram obrigados a usar correntes amarradas em seus tornozelos.

A “prisão” localizava-se no subsolo do Departamento de Psicologia de Stanford, que fora adaptado para esse propósito. Um estudante assistente de pesquisa era o “Diretor” e Zimbardo, o “Superintendente”. Todas as condições e rotinas haviam sido formatadas para que os “prisioneiros” ficassem desorientados, despersonalizados e desindividualizados. Zimbardo havia planejado conduzir o experimento durante duas semanas, porém o crescente grau de sadismo dos guardas e o surgimento de severos distúrbios emocionais entre os prisioneiros rapidamente deixou a experiência fora de controle, levando à sua conclusão após apenas seis dias de duração.

Justiça deveria significar restituir a cada um o que lhe convém segundo o que lhe é devido, mas, na prática, o conceito de Justiça foi internalizado como “fazer bem aos amigos e mal aos inimigos”. A Justiça, sejamos sinceros, não é outra coisa senão essa sublime credulidade para sujeitar o fraco à eterna conveniência do mais forte – e, em uma sociedade, quem detém a maior força senão o Estado?

De um lado, justiça consiste em premiar com conveniências e bondades aqueles que são amigos do Estado – ou do superintendente, ou do diretor ou dos guardas do Experimento de Stanford, ou de quem quer que ostente poder. No outro lado da cerca, aqueles que criticam a injustiça da autoridade não a criticam por recearem praticá-la, mas por temerem sofrê-la.

O Experimento Milgram

O Experimento Milgram foi conduzido na Universidade de Yale alguns anos antes da experiência de Stanford: no início da década de 1960, o psicólogo Stanley Milgram recrutou 40 homens com idades entre 20 e 50 anos para pesquisar como pessoas desconhecidas reagiriam a uma instrução se esta envolvesse ferir outra pessoa.

No início do experimento, os recrutados eram apresentados a outro participante que, na verdade, era um cúmplice de Milgram. No sorteio para ver qual papel seria exercido por quem (o de “aluno” ou o de “professor”), o cúmplice acabava sempre sendo o aluno. No local do teste havia também um “pesquisador” vestido com um jaleco cinza, interpretado por um ator.

Após o sorteio, o “aluno / cúmplice” era amarrado a uma cadeira com eletrodos e recebia uma lista de pares de palavras que deveriam ser memorizadas. O “pesquisador” então o testava, falando o nome de uma palavra e pedindo para o aluno lembrar qual era seu par de uma lista de quatro possíveis escolhas. Cada vez que o aluno errava, o “professor / voluntário” era orientado a administrar-lhe um choque elétrico variando de 15 (choque leve) a 450 volts (choque grave).

O aluno errava a resposta propositalmente na maioria das vezes, e, em cada vez, o “professor” dava-lhe um choque elétrico conforme orientado pelo “pesquisador”. Quando o professor se recusava a administrar um choque, o experimentador (o ator) lhe repetia uma série de frases de estímulo para garantir que eles continuassem. Se a primeira frase de estímulo não fosse seguida, o experimentador lia a segunda frase, e assim por diante. O Estímulo 1 consistia em dizer “Por favor, continue”; o Estímulo 2, “O experimento requer que você continue”; o Estímulo 3, “É absolutamente essencial que você continue”; e o Estímulo 4, “Você não tem outra escolha a não ser continuar”.

Caso o participante se negasse a fazê-lo depois da quarta frase, o experimento era interrompido. Caso contrário, o experimento só era interrompido ao alcançar a voltagem mais alta. Dois terços (65%) dos participantes continuaram até o mais alto nível de 450 volts. Todos os participantes continuaram até 300 volts.

Ainda que seja absolutamente injusto aplicar choques em uma pessoa inocente, o argumento de uma autoridade oferece uma proteção psicológica para dobrarmos nossa Moralidade até o ponto em que ela se torna imoral, mas pessoalmente aceitável.

Os humanos podem ser cruelmente injustos, mas tendem a sossegar quando sentem estar agindo com justiça – ainda que esta simulação seja um mero disfarce para acalmar a violação de seus julgamentos Morais inatos. A aparência, como a conveniência, tem essa incrível faculdade de subjugar a Verdade.

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1. Platão. A República. Martin Claret (2000).
2. Philip G. Zimbardo. Stanford Prison Experiment – Social Psychology Network. Disponível em http://www.prisonexp.org/
3. Milgram S. Behavioral Study of Obedience. Journal of Abnormal and Social Psychology, 1963;67:371-378.

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