VOCÊ NÃO PRECISA TER MAIS PARA SER MAIS*

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Quando você iguala a felicidade à compra de mercadorias que se espera que gerem felicidade, está na verdade afastando a probabilidade de a busca da felicidade algum dia chegar ao fim.

Cedendo aos encantos da sociedade de compradores e da vida de compras, você se manterá feliz enquanto não perder a esperança de ser feliz. Mas esta esperança só permanecerá viva sob a condição de uma rápida sucessão de novas oportunidades e uma cadeia infinitamente longa de novos inícios à frente. Por isso, você divide sua vida em episódios, em fatias de tempo independentes e autossuficientes, cada uma com enredo, personagens e final próprios.

Como cada episódio tem sua própria trama e precisa de um novo elenco, todos os laços e vínculos devem seguir o padrão da relação entre o comprador e as mercadorias que ele adquire: das mercadorias não se espera que abusem da hospitalidade, e elas devem deixar o palco da vida no momento em que comecem a perturbá-lo em vez de adorná-lo; dos compradores não se espera – nem estão eles dispostos a isso – que jurem fidelidade eterna às aquisições que trazem para casa ou que lhes concedam direito de residência permanente.

Entretanto, no fundo de sua alma, você sabe, você tem certeza absoluta de que metade dos bens cruciais para sua felicidade não tem preço de mercado nem pode ser adquirida em lojas. E esta é a causa de toda sua frustração e sofrimento inúteis.
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*Adaptado de “A Arte da Vida”, de Zygmunt Bauman.

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