O SUPER OCUPADO

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Quase sempre, quando ouço alguém perguntar “E aí, como vão as coisas?”, vejo outra pessoa respondendo “Ah, naquela correria, sabe como é…”.

Naquela correria. Sim, sei como é. Todo mundo correndo. Todos na correria. Correndo das contas que fizeram, dos compromissos e relacionamentos que assumiram, correndo das emoções negativas que insistem em cultivar, correndo com medo do medo de ter medo. Correndo, correndo sempre – para no final reclamar em uníssono que a vida passou rápido demais.

Em algum momento, décadas atrás, alguém muito prático resolveu que o antônimo de ocupado não seria relaxado, mas desocupado mesmo – como se uma coisa tão maluca como o Tempo pudesse ocupar algum espaço. Talvez essa forma de encarar o termo ocupado tenha se iniciado com a popularização das agendas, onde cada evento deveria ocupar uma linha ou um quadrado no correr das horas úteis do dia. Preencher uma página inteira da agenda dava a impressão de que a vida não possuía mais espaços vagos, que tudo estava resolvido, combinado e marcado para acontecer, e as obrigações então passariam correndo, correndo.

Desde pequenos, por pressões de forças sociais contínuas e várias agendas com capas de couro ao longo dos anos, fomos encorajados a agir dessa forma: gerenciando o tempo ao invés de apreciá-lo. Ocupá-lo ao invés de usufruí-lo. Organizamos horas em turnos, unidades manufatureiras, checklists de eficiência, objetivos pragmáticos e metas a serem atingidas, como se tivéssemos que provar nosso valor para uma auditoria celestial especializada na avaliação do índice CPHV (Contabilidade Produtiva das Horas Vividas). O parecer de deus sobre sua CPHV seria o fiel da balança, o derradeiro carimbo no seu ticket de estacionamento para o céu.

Tomamos posse dessa pretensa importância acreditando que, quanto mais ocupados estivermos, mais significativos seremos. Quanto mais longas forem suas listas de tarefas, quando mais complexos forem seus afazeres, quando mais exausto você estiver no final do dia, mais virtuoso você será. Certo?

Não necessariamente, gafanhoto.

Quando foi a última vez que, ao perguntar para alguém “E aí, como vão as coisas?” você ouviu “Joia! Ando fazendo nada, acredita?” ou “De boas! Suave na nave”?

Apenas pensar que alguém pode lhe responder desse jeito já parece um tipo de blasfêmia, não? No mínimo, suspeito… “Como assim, fazendo nada?”, você pensa instantaneamente com seus botões. Ninguém tem o direito de ficar “suave na nave” enquanto você vira folhas depois de folhas na agenda, suando seus dias espremidos no maquinário do status social.

Se alguém sugere que “anda fazendo nada”, você imediatamente começa a pensar que esse cidadão anda aprontando alguma coisa. As únicas pessoas que respondem “fazendo nada” quando perguntadas “E aí, como vão as coisas” são assaltantes, sequestradores, traficantes, psicopatas, serial killers e outros criminosos de altíssima periculosidade. Ninguém está “fazendo nada”! A essa altura, seus neurônios começam a verificar pontos de fuga e discutem qual seria o melhor número para ligar: Disque Denúncia ou Polícia Federal de uma vez? “Esse cara não me engana…´fazendo nada´, sei…”.

Estar sob o jugo de uma agenda não é muito diferente de estar sob o jugo de um sequestrador ou um assaltante. Apenas que, neste caso, o meliante que lhe assedia é você mesmo: enquanto come seu almoço rápido, você – esse canalha de si próprio – vai registrando o que quer, o que acha que precisa e o que espera que irá lhe satisfazer, como se essas imposições estivessem fora do seu controle absoluto. Mas não estão. Elas estão bem aí, bem nas suas mãos que tomam notas. É você quem manipula a pá que cava o buraco que irá lhe engolir.

Você não está sempre mais ocupado que todo mundo. Você apenas quer estar – ou parecer que está. É uma armadilha da vaidade. Para escapar dessa emboscada com elegância, de agora em diante, se alguém lhe perguntar “E aí, como vão as coisas?”, diga “Excelente! Ainda mais com o verão chegando!” ou “Super! Estou indo comer um pedaço delicioso de pizza exatamente neste momento!”. Ou fale sobre uma foto que você tirou, ou de como sua noite de sono foi agradável, ou do cheiro do café que passou pela manhã, ou dos planos para o final de semana, do livro que está lendo, da viagem que está planejando… ou simplesmente responda “Joia! Ando fazendo nada, suave na nave, acredita?”. Apenas não caia na armadilha de falar “Um sufoco! Só na correria! Atolado de trabalho até o pescoço!”.

Lembre-se do que Sócrates tentou lhe ensinar: “Cuidado com o vazio de uma vida ocupada demais”. No meio das folhas de sua agenda, dispa-se da fantasia de super ocupado e reserve horários para perceber-se vivo, pois este é o mínimo de inteligência que o universo espera de você.

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