O FALSO DOENTE

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Nós, seres humanos, nascemos dotados de um poderoso aplicativo hereditário de reconhecimento de padrões. Este programa está tão embutido em nossos genes que, frequentemente, nos leva a perceber padrões até onde eles não existem – ao ponto de encontrarmos alguma ordem onde só há confusão.

No reino da medicina, definimos doença como uma alteração na fisiologia, na anatomia ou na bioquímica do organismo que resulte em um desconforto ou incapacidade significativa. Uma doença é uma alteração bem definida e objetivamente localizável e demonstrável do padrão normal de funcionamento do corpo.

Utilizamos o termo síndrome como uma maneira de descrever um conjunto de sinais e sintomas que ocorrem simultaneamente durante o desenvolvimento de uma doença. Isso significa que síndrome traduz “achados anormais que não possuem uma causa específica”; e doença, “achados anormais associados a uma causa claramente identificada”.

Quando uma doença ainda está em processo de identificação, os médicos costumam se referir a ela como uma síndrome. Entretanto, algumas vezes um conjunto de sinais e sintomas é simplesmente uma coincidência que foi equivocadamente rotulada como um padrão (é o bendito aplicativo hereditário de reconhecimento em ação…).

Na cultura popular, muitas situações anormais – que seriam nada mais que discretas variações na amplitude usual da saúde humana – terminam sendo batizadas de doenças ou síndromes. E é neste ponto que o problema das falsas doenças começa.

A SUPERMEDICALIZAÇÃO DA NORMALIDADE

Ao dizer que existe algo como uma falsa doença, não estou afirmando que a pessoa finge estar doente. Sim, alguns indivíduos efetivamente adoram simular uma doença, mas esta é outra história.

Por falsa doença me refiro a padrões de sinais e sintomas que são apenas isso: padrões. Eles podem ou não constituir uma doença ou síndrome verdadeira, porém alguém, em algum lugar, decidiu batizar estes padrões como uma doença, precipitando uma cascata de eventos equivocados.

Por exemplo: você pode estar acima do peso e desanimado. A sensação de cansaço parece não melhorar com atividades físicas, mas também não melhora com o repouso. Fuçando na internet, você rapidamente chega à conclusão de que sofre de Síndrome da Fadiga Crônica, e começa a procurar algum médico que lhe reafirme o diagnóstico e prescreva algum tratamento.

Nem todo caso de Fadiga Crônica é uma síndrome. Na imensa maioria dos casos, não é. E, ao invés de remédios, você deveria é envergonhar-se de sua fragilidade voluntária e procurar colocar-se à altura da experiência extraordinária que é o presente da vida que lhe foi dada. A crença em uma falsa doença, entretanto, lhe impede de dar este salto.

Outro exemplo: talvez você esteja se sentindo assoberbado pela carga de trabalho e incumbências. Seu emocional passa a ficar em um estado de alerta permanente, agitado, indignado, nervoso. Mais uma vez, Santo Google permite que você chegue ao diagnóstico de Estresse. Ótimo, agora você tem um nome para a doença que lhe aflige. Hora de procurar o médico novamente, que irá validar sua hipótese e prescrever alguma pílula mágica.

Não obstante, você não sofre de estresse. Você sofre, sim, de uma incapacidade de fazer escolhas inteligentes. Durante anos a fio, permitiu que a vida lhe conduzisse pelos dias ao invés de fazer o contrário; não aprendeu a cuidar de seus interesses, não aprendeu a dizer não, não desenvolveu planejamentos ou sequer uma filosofia de prosperidade. E agora quer culpar alguém por isso. Então culpa o estresse, sua doença imaginária de estimação.

Finalmente, talvez você esteja sentindo palpitações leves eventuais, tristeza, algum pessimismo e baixa auto-estima. Em uma rápida conversa com dois amigos, você descobre seu diagnóstico: Depressão. “Caramba, estou com depressão! Agora sim, tudo faz sentido!”, anuncia seu aplicativo hereditário de reconhecimento de padrões. Qual era o endereço daquele médico mesmo?

Contudo, você não está sofrendo de depressão. O problema reside na sua cultura pessoal de auto-vitimização e baixa resiliência mental, provavelmente herdada de seu núcleo familiar e reforçada por um círculo pernicioso de amizades – que quase com certeza é rico em pessoas tão langorosas quanto você. Procurando auxílio para sua falsa doença, você receberá uma prescrição de ansiolíticos e um carimbo de certificação de qualidade para seu diagnóstico fantasioso, eternizando o equívoco.

A MEDICINA É DURA

Não estou dizendo que síndrome da fadiga crônica ou estresse ou depressão não existam. O que estou afirmando, com todas as letras, é que a IMENSA maioria das pessoas diagnosticadas com estes problemas não sofre de uma doença orgânica. Elas sofrem de problemas MORAIS. E resistem com todas as forças em assumir este calcanhar de Aquiles.

Uma coisa que as falsas doenças têm em comum é a ausência de evidências objetivas de sua causa. Em alguns casos, em uma completa subversão de todos os dogmas científicos tão arduamente desenvolvidos até aqui, defende-se que exatamente a ausência de evidências confirma a existência da doença.

O diagnóstico de uma falsa doença desencadeia uma série de problemas adicionais. Primeiro: fixando-se em um conjunto de sintomas como sendo um diagnóstico de fato, deixamos de procurar por sua verdadeira causa. Segundo: falsas doenças produzem falsos tratamentos – e muito dinheiro será gasto com condutas pseudocientíficas como homeopatia, cristais, limpeza do cólon, iridologia, magnetoterapia, reiki, vitalismo, ventosas, urinoterapia, abordagens holísticas de salutogênicos e uma infinidade de outros placebos alternativos.

Se o dinheiro investido é parte de um orçamento de saúde pública, isso é péssimo. Se o dinheiro investido é seu, isso é ainda pior: você poderia estar utilizando essa verba para cuidar melhor de si e de sua família, fazendo coisas que realmente funcionam (por exemplo: psicoterapia cognitivo-comportamental ou coaching focado em resultados), ao invés de pagar para ser tratado com chás de unicórnios cor de rosa.

A ciência é dura, inclemente, severa, muitas vezes arrogante, inóspita e cruel. A medicina, uma de suas filhas, herdou todas estas características. Eu mesmo já tive que conversar algumas vezes com meus pacientes e dar a notícia: “você tem um câncer avançado, intratável, que irá causar sua morte em no máximo um ano, independente do que fizer”. É horrível, quase desumano, mas é necessário. De outro modo, eu estaria roubando daquela pessoa a chance de colocar sua vida em ordem, de assumir algumas responsabilidades e tomar decisões importantes no tempo que lhe resta.

Da mesma forma, pode parecer uma presunção desaforada dizer para alguém: “você não tem uma doença. Na verdade, você não tem nada, mas quer acreditar que tem. Eu poderia lhe ajudar a resolver isso, mas preciso, antes, que você aceite que o problema não é uma doença: o problema é você mesmo”. Isso pode parecer horrível, quase desumano. Mas é necessário. De outro modo, eu estaria roubando daquela pessoa a chance de colocar sua vida em ordem, de assumir algumas responsabilidades e tomar decisões importantes no tempo que lhe resta.

Nos dois casos, a conclusão é a mesma: é complicado dizer para as pessoas o que elas não querem ouvir. Mas isto faz parte do trabalho de um médico: não somos mensageiros exclusivos de doçuras, tampouco fomentadores de autopiedade. Todavia, isto não nos impede de oferecer compaixão na forma de entendimento e orientações eficazes cientificamente embasadas.

Pessoas que acreditam que possuem uma falsa doença são vítimas de um modo que nenhum outro paciente jamais será. Não apenas elas se encontram em sofrimento e são desacreditadas por alguns profissionais, mas aqueles que acreditam nelas estão prestando um desserviço ao alimentar sua crença viciosa, desviando-as de tratamentos válidos e vendendo uma misericórdia ilegítima. Essas pessoas deveriam ter vergonha de se aproveitar de seres humanos fragilizados desse modo. Mas vergonha é uma premissa que o charlatanismo jamais teve – e jamais terá.

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