UMA CONVERSA IMPRESCINDÍVEL SOBRE SEXO

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Em 2007, Melissa Farmer e Cindy Meston, psicólogas da Universidade de McGill (Canadá), avaliaram 651 mulheres sexualmente ativas, com idades entre 18 e 25 anos, e observaram que 63% delas se queixavam de dor ou desconforto durante o intercurso sexual: 40% “ocasionalmente” e 23% “sempre”.

Os resultados encontrados por Melissa e Cindy em 2007 estavam longe de ser inusitados. Na verdade, eles repetem um padrão observado em vários outros estudos. Por exemplo: em 1999, a partir de uma amostra de 1749 mulheres e 1410 homens, pesquisadores do Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago (EUA) descobriram que as disfunções sexuais afetam 31% dos homens e inacreditáveis 43% das mulheres – e a incidência destes problemas aumenta entre elas com a chegada da menopausa.

Apesar das pessoas dizerem que “em um relacionamento, sexo é importante, mas não é tudo”, eu desconfio que alguém esteja tentando esconder um esqueleto no armário com esse tipo de conversa.

Sexo pode não ser “tudo” em um relacionamento, mas vamos ser sinceros: ele é uns 80%. Ou mais.

É através do sexo que firmamos e aprofundamos o vínculo emocional com nossa alma gêmea. O sexo é simultaneamente uma ponte, uma estrada e um destino para o desejo, o amor e a reciprocidade.

Subestimar o poder do sexo é contradizer a própria Natureza, que o utilizou como ferramenta para nossa função mais nobre: a Reprodução.

As pessoas se metem em relacionamentos pensando em tudo – confiança, respeito, tolerância, fidelidade, parceria, cumplicidade, finanças e filhos -, mas pouquíssimas se atém ao Sexo com a devida atenção.

Insistimos em tratar o sexo como se fosse algo casual, uma refeição despretensiosa servida algumas vezes por mês ao longo da vida conjugal. “Não vejo motivo por quê fazem tanto auê por causa desse assunto…”, ouço alguém falar diariamente no consultório. O preço dessa desatenção é fácil de ser percebido: os índices de divórcio aumentaram 160% no Brasil na última década.

Certamente, as canadenses Melissa e Cindy – e alguns sociólogos da Universidade de Chicago – teriam alguma coisa a dizer sobre as causas desses números…

Um sexo sensacional é capaz de manter vivo por vários anos um relacionamento que, de outro modo, já estaria sepultado. E um sexo morno ou ruim é uma enchente lenta, porém avassaladora, capaz de consumir as forças até dos casais mais resilientes. Não menospreze a energia embutida no trator vigoroso do sexo, ou cedo ou tarde você se surpreenderá sendo atropelado por ele.

Ao longo de minha prática médica, compreendi que a harmonia sexual é importante não apenas para a felicidade do casal, mas também para a saúde de cada indivíduo.

Por isso, se você estiver procurando um cobertor de orelha, fique atento: sexo não é “uma parte” do relacionamento. Ele é uma súmula da união como um todo.

Ao escolher sua parceira, avalie suas chances de sobrevivência conversando com ela sobre 3 pontos fundamentais:

  1. COM QUE FREQUÊNCIA CADA UM DE VOCÊS NECESSITA DE SEXO?

Algumas pessoas são mais sexuais que outras. Algumas precisam de sexo uma ou duas vezes por dia; outras precisam apenas uma vez ao mês. (Consideramos duas a três vezes por semana uma média fisiológica).

Apesar disso não parecer teoricamente muito importante (“Ah, mas nós somos tão sintonizados em tantas outras coisas, somos conectados em nível espiritual, sabe?…”), na prática, a frequência ideal dos intercursos sexuais é extremamente relevante.

No começo do relacionamento, ambos darão o máximo de si para acomodar e atender todas as vontades um do outro. Contudo, eventualmente, as demandas individuais começarão a se manifestar e a parte que deseja sexo com mais frequência, na hipótese de não ter suas necessidades atendidas, terá casos extraconjugais – o que derradeiramente levará ao término do romance.

  1. TAMANHOS E FORMATOS: VOCÊS SÃO COMPATÍVEIS?

Alguns homens ostentam um pênis ereto largo e comprido, outros são menores e mais finos. Algumas mulheres dispõem de uma vagina larga e profunda, ao passo que outras são mais curtas e estreitas.

Alguns homens possuem o pênis curvado para cima, ou para baixo, ou para um dos lados. Algumas mulheres apresentam o útero voltado para frente, dobrado e descansando sobre a bexiga (útero antevertido), outras o apresentam voltado para trás (útero retrovertido).

Estas variações anatômicas são absolutamente normais, mas algumas combinações homem-mulher são melhores que outras.

Por exemplo: se um sujeito com um pênis ereto largo e comprido resolver se juntar a uma mulher portadora de uma vagina curta e estreita, as chances são de que o sexo não seja confortável para ela, e a mulher pouco a pouco perderá seu interesse por sexo. Quando a menopausa chegar e tornar a vagina dela ainda menos lubrificada, sua vontade de fazer sexo irá praticamente desaparecer – para desespero do marido bem dotado, que ficará andando faminto pela vizinhança. Ele certamente terminará arrumando outra mulher, abandonando o relacionamento anterior.

Se um homem com um pênis ereto curto e fino se juntar a uma mulher portadora de uma vagina larga e profunda, ambos terão uma dificuldade enorme em atingir o orgasmo. Ele se sentirá nadando em uma piscina olímpica enquanto ela fica pensando se alguma coisa de fato está dentro dela. As fantasias dela crescerão acompanhando as insatisfações e você sabe muito bem onde isso irá terminar: em um drinque com o cara do parágrafo acima.

Se um homem cujo pênis apresenta uma curvatura para baixo se juntar a uma mulher de útero retrovertido, o pênis dele irá se chocar com o útero na posição papai-e-mamãe, empurrando o útero contra a parte posterior da bacia, causando dor e desconforto. Para que o intercurso seja prazeroso, este casal terá que buscar posições alternativas.

E por aí vai.

Tamanhos e formatos anatômicos são importantes para assegurar encaixes apetitosos, mas não são impeditivos. O casal pode adaptar e explorar seu prazer utilizando variações de sexo oral, manual, anal ou empregando cremes, lubrificantes, brinquedos sexuais e quantos fetiches forem mutuamente consentidos. Este tipo de conversa deve ocorrer o mais cedo e do modo mais aberto possível.

  1. QUANTO TEMPO CADA UM DE VOCÊS LEVA PARA ATINGIR O ORGASMO?

Algumas pessoas (homens e/ou mulheres) levam 20 a 30 minutos para atingir um orgasmo, ao passo que outras alcançam o clímax em 6 segundos – ou até menos.

Existem medicações que podem ser empregadas para aumentar em 3 ou 4 vezes o tempo até o orgasmo. Todavia, isso significa que um sujeito que ejacula aos 6 segundos irá ejacular aos 18-24 segundos após o início do intercurso sexual. Se sua parceira é alguém de 20 minutos, mesmo com a medicação ele terá dificuldade em se prolongar até que ela atinja o orgasmo dela.

Os casamentos mais antigos, que eram arranjados e onde os noivos raramente mandavam ver antes da noite de núpcias, funcionavam relativamente bem sem todo esse papo sobre sexo e orgasmo por um motivo bem simples: naqueles tempos, o sexo não era o foco da união. O cerne do relacionamento estava em constituir uma família.

Lamentavelmente, por mais lindo que você ache esse conceito, não adianta defender o puritanismo ou viver com saudosismos improdutivos sobre como as coisas eram ou deveriam ser e não são mais. O mundo não se perdeu, ele apenas mudou. Os tempos mudaram. A pílula anticoncepcional aconteceu no banco de trás do carro, as mulheres saíram às ruas para defender o direito ao orgasmo e a vários outros, e tudo é diferente agora.

Um relacionamento se tornou um organismo complexo, não é mais o chefe da casa e a dona de casa. Hoje, um relacionamento exigirá paridades emocionais, intelectuais e financeiras, mas acima de tudo ele exigirá um bom nível de afinidade sexual para se sustentar no longo prazo.

Tudo bem, o interesse por sexo poderá diminuir com o tempo. Após terem filhos, algumas mulheres se sentem mais mães que fêmeas e perdem um bocado do interesse em sua própria sexualidade. As alterações hormonais da menopausa e o uso de antidepressivos diminuem ainda mais a libido feminina. Entre os homens, as doenças do coração, o diabetes, o estresse e certos medicamentos também afetarão sua capacidade de manter ereções de qualidade.

Se você encontrou alguém perfeitamente compatível, curta bastante o presente, viva 110% do momento! Relações assim são raras e preciosas e merecem ser celebradas com intensidade – e, de preferência, com pitadas generosas do bom e velho sexo.

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